-Teu avô?
Ela me perguntou, defronte à fotografia amarelada e meio carcomida nos cantos que fica na estante da sala, próxima ao cinzeiro que veio de machu-pichu e da bernunça de barro com sua bocarra aberta.
Sempre gostei de ouvir e contar histórias, muitos dizem que minhas mentiras vão muito bem até certo ponto e que depois descambam para o absurdo. É que a intenção é de brincar com a realidade e não apenas e simplesmente mentir.
-Não...-pronto, era a verdade, mas a maneira que eu falei e torci os beiços dava margem para esperar mais alguma coisa.
Ela gostava de histórias, foi oque me disse no barzinho, no ínicio da noite.
-Tu ainda fumas narguilé!?-e sentou-se na minha frente deixando cair um cacho de cabelos no rosto.-o pega rapaz é o mais antigo dos artifícios, penso eu.
-Ás vezes-e o meu melhor sorriso, aquele tímido-cafageste-intelectual que na frente do espelho fica muito bom. E a cuca fervendo para lembrar de onde a conhecia.
-Da casa de L.. Disse ela. E sorriu.
Eram perfeitos, mas prefiro os que não passaram pelo ortodontistas, assim como não curto silicone. Purismo apenas, impedimento para absolutamente nada-deixo dito.
-Claro que me lembro, ora!-de fato me recordava-como ia esquecer!-mais sorriso. E a conversa mole começou
Tu sozinho aqui; Tu também estás; acende cigarro, acende o dela, batem os copos de chopp-nunca gostei de brindar mas mulher adora.
-Como era mesmo aquela história? Que contaste enquanto fumavas o narguilé lá na casa da L...
Era um trecho de um livro do Castañeda, falava sobre procura e poder.
-Sabe mais alguma?-falou, enquanto bebia o chopp e me olhava por sobre o copo.
E foi assim que acabou em frente a minha estante, perguntado sobre a foto antiga de um respeitável senhor de bigode fino e roupa do ínicio do século e que comprei por R$2,25 em uma feirinha hippie.
continua...
sábado, 13 de dezembro de 2008
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras.
Este post, é para registrar uma data que, de memória escura e violenta, não deve ser esquecida. Os 40 anos do AI-5, aquele que viria a despertar da letargia em que estavam imersas boa parte da imprensa e da classe média, desde o golpe ocorrido 4 anos antes no país.
Através da indefectível Voz do Brasil, dia 13 de dezembro de 1968 o país todo ficou ciente do cerceamento de liberdade e da verdadeira face do regime de excessão em que nos encontravámos.
No dia seguinte, foi publicado no JB, esta nota climatológica.
"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras."
Clara alusão ao Ato Institucional 5 e ao Ato Complementar 38, e que passou batido pelo censor.
Através da indefectível Voz do Brasil, dia 13 de dezembro de 1968 o país todo ficou ciente do cerceamento de liberdade e da verdadeira face do regime de excessão em que nos encontravámos.
No dia seguinte, foi publicado no JB, esta nota climatológica.
"Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras."
Clara alusão ao Ato Institucional 5 e ao Ato Complementar 38, e que passou batido pelo censor.
sábado, 29 de novembro de 2008
Sobre a Tragédia.
Quando hoje falando com uma amiga sobre a situação calamitosa por qual estão passando os atingidos pelo temporal que atingiu nosso estado, e vendo seu empenho em arrecadar oque fosse possível para levar até a região e, se não aliviar a dor, pelo menos manter com o mínimo de dignidade possível a vida dos nossos irmãos, lembrei-me de uma frase que ouvi em um disco de um show do Noel Guarany.
La arena és um puñadito, pero hay montones de arena.
A frase é do mestre Atahualpa Yupanqui.
Pues bem.
Oque havia para comentar com nossos amigos, conhecidos ou com o companheiro de assento no ônibus sobre as chuvas, já foi comentado. Oque havia para chorar assistindo as cenas, sentados em nossos sofás, já foi chorado.
É hora de escolher as roupas para doar, colocar em sacolas comida e produtos de higiene, adiar a balada de sábado a noite e doar o dinheiro que gastaria com os três chopinhos em quaisquer uma das muitas contas existentes para este fim.
La arena és um puñadito, pero hay montones de arena.
A frase é do mestre Atahualpa Yupanqui.
Pues bem.
Oque havia para comentar com nossos amigos, conhecidos ou com o companheiro de assento no ônibus sobre as chuvas, já foi comentado. Oque havia para chorar assistindo as cenas, sentados em nossos sofás, já foi chorado.
É hora de escolher as roupas para doar, colocar em sacolas comida e produtos de higiene, adiar a balada de sábado a noite e doar o dinheiro que gastaria com os três chopinhos em quaisquer uma das muitas contas existentes para este fim.
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
O Espírito do Sol
E hoje ela [a saudade] veio na forma de um livrinho amarelado pelo tempo, rabiscado aqui e ali com enternecedoras e simples palavras que ao não dizer nada se mostram de muita importância.Ao final de algumas páginas lia-se, a lápis, oje ou aqui. Oque isto queria dizer!? Que o livro havia sido lido até aquele ponto. Eu achei bonito, até porque conheço a letra.
E note-se o hoje sem H, comum em quem ao não tem a intimidade com as letras, e o engraçado que é, por impensável, escrever até onde o livro foi lido.
O Espírito do Sol foi escrito por Ofélia Fontes, ilustrações de Narbal Fontes e por volta de 1946 já haviam 4 edições dele.Mas oque há de tão especial em um livro infanto-juvenil, com uma história datada, em que o menino, escoteiro, bondoso, esperto e obediente sai em busca do pai que está nos confins do Araguaia metido no garimpo?
Para mim, muito.
Meu vô, Pedro, certa vez me contou, provavelmente ao me ver com o nariz no meio de um livro, que certa vez ele leu um, TODO. E o modo como ele falou aquilo, me marcou. Aquele TODO dele encerrava uma conquista. E serviu para que ao longo das relações que tracei com outros vida fora, desse, eu, valor, e compreendesse que o pouco para muitos é tudo oque existe.
Deste, provável, único livro que meu vô leu, e que está aqui ao meu lado, com a marca do tempo, foi tirado o nome de meu tio Boanerges, o mais velho dos cinco irmãos de minha mãe.
terça-feira, 18 de novembro de 2008
1,2,3 e 4
1
A chuva cai lá fora,
você vai se molhar,
vai se molhar
já lhe pedi...
2
não pode tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre um onda
e outra onda
no oceano dos lençóis
3
a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa.
4
você está tão longe
que as vezes penso
que nem existo
nem me fale de amor
que amor é isso.
A chuva cai lá fora,
você vai se molhar,
vai se molhar
já lhe pedi...
2
não pode tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre um onda
e outra onda
no oceano dos lençóis
3
a noite
me pinga uma estrela no olho
e passa.
4
você está tão longe
que as vezes penso
que nem existo
nem me fale de amor
que amor é isso.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
O rato.
Ai de mim! - disse o rato - o mundo vai ficando dia a dia mais estreito.
- Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair".
- Mas o que tens a fazer é mudar de direcção - disse o gato, devorando-o.:
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Adelfa.
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