quinta-feira, 13 de maio de 2010

Uma vaca e seus berbigão.


Fiz uma experiência banal por estas noites e o resultado se não proveitoso foi deveras inusitado.(Início a la E. A. Poe).
Sempre leio antes de dormir, quando vem o sono ponho o livro ao meu lado na cama. Desta vez além de óculos e livro havia lápis e papel.
A intenção era começar a anotar meus sonhos. (Aqui o texto está ficando igual um Castañeda, que horror).
Assim como todo o mundo, já quis me lembrar oque havia sonhado na noite anterior e não havia conseguido. Ou então acordando na madrugada, o sonho era algo interessante, e pela manhã não havia sobrado nada na memória.
Meu sono, antes agitado, já faz algum tempo está bem melhor, portanto algumas noites se passaram sem os pesadelos outrora tão comuns só acordando com o despertador tocando o CD da vez.
Mas noite passada aconteceu:
Uma vaca, mas não estas vacas de filme, malhadinhas, gordas; era uma vaca de verdade, das que vi nascerem e morrerem e parirem, bezerros e bezerros e bezerros. Pela sua boca um tanto torta identifiquei uma usuária, quando bezerra e talvez até já novilha, das chamadas 'tabuletas', instrumento que quando afixado nas ventas do animal serve para impedi-la de mamar quando isto se torna assim necessário. (Se eu soubesse mexer em photoshop faria uma montagem com uma série de políticos comumente envolvidos em maracutaias, super-faturamentos e tale coisa com a dita tabuleta fincada em suas narinas, seria um medida para evitar que continuem mamando na gordas tetas).
Esta vaca apareceu em minha frente calma, serena, bovina, ruminando, baba escorrendo como de praxe, olhos redondos e enormes e eu me via neles. Só aí entrei no sonho. Eu estava em uma chácara, o tempo era fresco, o dia claro e nada haveria de extraordinário se a mimosa não houvesse me pedido com a voz e trejeitos de boca do Boris Casoy com sotaque ilhéu 'Um quilo de berbigão...' da próxima vez que eu ali voltasse '...pra fazer uns pastel.).

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Cerração

Eis que eis do céu de novo ficar cinza, da chuva outra vez não cessar, do vento dar um jeito de se enfiar casa adentro sabe-se lá por que frestas e do peito apertar sob o peso de cem toneladas de desilusão.
Com o sol a pino fica mais fácil desviar os olhos da navalha de barbear, a mesma que atormentou Harry Heller, com a diferença de que a sua sombra me surge duas décadas antes do que a idade do Lobo.
Como Cortázar, os anos de minha infância passaram envoltos em bruma, daí talvez me venha esta umidade impregnante de banco de jardim, e desde muito cedo não retive atenção ou afeto sobre ninguém, nada era pessoal, ou personalizado. Entendia que a vida seguia o trilho, indiferente, imútavel, e que a nós, insetos deste circo de pulgas, exilados em savanas, pampas e tundras, cabia enfrentar o mais terrível deserto, que é oque existe dentro de nós mesmos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

l'amour entre deux tortues... doucement e toujours...



Com o tempo...

...andando bem a seu jeito, Devagar e Sempre,eles se encontraram, agora sim, de fato, frente a frente.
Pois que apesar de ser indelével e contínuo, com a sua linearidade já posta por terra, seja por físicos, filósofos ou esta outra casta que tanto conta estrela quanto grão de areia, os escritores, outros encontros, de viés, como que esbarrões, meio de lado(o sorriso com o mais puro azul dos olhos-entre um ônibus e outro) já haviam se dado.
De uma feita, a mesma poça, levara os dois a um salto bem parecido, coincidência que caso voltasse a repetir-se de outras formas acabaria por tirar o plausível da história não nos tivesse já acostumados com o absurdo, companheiro contumaz de nossa estada.
A primeira luz da lua após as três noites escuras de um ciclo lunar que seria como outro qualquer, desde que o satélite de nós se desprendera, também escolhera desenhar a silhueta dos vêrtices desta história, cada um em seu mundo, cada qual em seu chão.
Em uma praça enquanto ele arrancava cabeças de formiga, empinava pipa, subia-descia no escorrega e chutava bola, ela passeava de mãos dadas já que o tempo para um corria enquanto para o outro se espreguiçava para passar.
Quando deu-se o choque do encontro na fronteira das elipses de seus mundos, um vento negro soprava de rastros no chão e com uma lufada capaz de arrancar um baobá pelas raízes ergueu-a até o infinito deixando para trás somente o cheiro de pitanga que ele desde criança sentia não sabia de onde.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fabulações Reminiscentes



A exposição consiste em cinco obras, fotografia e vídeo, que remetem à memória da artista, sendo que cada uma delas leva um texto de cinco convidados que cumprem o papel de interlocutores de fabulações, presentes tanto na obra quanto no texto.

Diz Ju Crispe:
"A idéia é abordar o universo dos mundos reais e ficcionais a partir da vivência de lembranças. A liberdade dada aos escritores para a criação do texto possibilitou a construção de uma rede de colaboração e de olhares diversificados, tanto na relação texto-obra, escritor-artista, quanto na relação obra-espectador",

A moça é formada em Artes Plásticas pela Universidade Estadual de Santa Catarina, participa de exposições desde 2003, é mestranda na mesma universidade com pesquisas relacionadas à memória e tem experiência em mediação de exposições, entende pacas de arte-educação e foi professora.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Sá, Rodrix e Guarabyra


Jesus Numa Moto

Preso nessa cela
De ossos, carne e sangue
Dando ordens a quem não sabe
Obedecendo a quem tem

Só espero a hora
Nem que o mundo estanque
Prá me aproveitar do conforto
De não ser mais ninguém

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcatéia
Vou meter um "Marlon Brando" nas idéias
E sair por aí

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Classius Clay antes dos tratamentos
John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E Arcanjo Gabriel sem apocalipse

Nada no passado
Tudo no futuro
Espalhando o que já está morto
Pro que é vivo crescer

Sob a luz da lua
Mesmo com sol claro
Não importa o preço que eu pague
O meu negócio é viver

Sob a luz da lua...
Mesmo com sol claro...
Preso nesta cela...

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Dalton Trevisan


Curitibano e arredio. Não gosta de entrevistas, não dá entrevista e nem se deixa fotografar. O conto abaixo foi publicado aqui sem qualquer permissão, se ele achar ruim que apareça...
É dele também a célebre frase sobre Curitiba: 'Cinqüenta metros quadrados de verde por pessoa de que te servem se uma em duas vale por três chatos?'

Segunda lhe Conto...

Uma Vela para Dario

Dalton Trevisan

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.