segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Segunda lhe Conto...

Uma Vela para Dario

Dalton Trevisan

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.

Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Aforismos...

'Jorge Vercilo, para mim, é como manga com leite, tenho a nítida impressão que vai me fazer mal'

"Jorge Vercilo, pour moi, est mange manche avec lait, ai la claire impression qui va me faire mal"

EL TORERO, L.B. "Parlant mal des autres et aphorismes". Painel: Leão Baio,2003

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Dia de Janaína

Canto de Iemanjá
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)

Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
Iemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De Iemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir Iemanjá

A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além do que o fim do mar
Bem mais além

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Poema de Natal

Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Se indo, foice...

Daqui de cima eu via ele chegar meio de lado, se ladeando. Beiço caído, cabeça em pêndulo rotativo sobre o pescoço magro, queixo agudo quase que roçando o peito.
-Tá quente, hein? Porra!-ou frio, conforme.
Mais de perto, o cabelo ralo e fino, o casco da cabeça manchado de sol e caspa.
Pegava, pagava oque fosse e se ia.
Assim se foi.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Formei-me em Farmácia, e na bebida busco esquecer...

-Torero, com esta frase vc me deixa mais deprê, vê se me ajuda né!?

-Tu não estás contente? Achas uma merda oque escolheste? Sim, porquê nem todos leram com estes olhos isto que escrevi.
Quando digo que um 'A' pode ser lido não de duas, dez ou cem maneiras diferentes e sim de quantos olhos forem capaz de identificar este símbolo, não estou exagerando.
Oras, Farmácia é um curso fantástico, e por diversas razões. São muitos os caminhos a serem seguidos na profissão e nos dá uma visão técnica e alheia a misticismos, é característica do curso este questionamento...funciona? mesmo? como? me mostre!! me prove!
Por isto que bebo!
Me chegam todos os dias miles de explicações, de respostas, de crentes em tudo...lacanianos, sartreanos, budistas e espíritas.
E só bebendo consigo me satisfazer com respostas que não me trazem nenhum gráfico, nenhum experimento padronizado e nenhum ponto fora do Q90.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cordeona


Feliz do guasca, Cordeona!
Que te conhece os segredos
Te arranca a alma com os dedos
E o coração traz à boca
Que traduz a ânsia louca
Na melodia que lavra
Substituindo a palavra
Por tua linguagem rouca